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Segurança em Brasília: como comparar regiões do DF com dado, e não com achismo

Não existe nota única de segurança. O ranking das regiões muda de ordem conforme o crime que você olha, e o número absoluto de ocorrências é o pior jeito de comparar.

Regiões do DFRua comercial no Distrito Federal com carros estacionados ao longo da via.
Em resumo: número absoluto de ocorrência não compara região, porque região grande tem mais de tudo. O que compara é a taxa por 100 mil habitantes. Cruzando os dados da SSP-DF de janeiro a junho de 2026 com a projeção populacional da Codeplan, o ranking muda de ordem conforme o crime: Samambaia é a segunda pior em roubo a transeunte e a segunda melhor em furto em veículo. E o Plano Piloto, que tem 7,6% da população do DF, concentra 48,9% de todo o furto em veículo registrado no período.

Quem está decidindo em que região do DF vai morar ouve a mesma frase em toda conversa: "aquela ali é perigosa". Quase sempre sem número atrás. E quando o número aparece, costuma ser o pior tipo de número, o total de ocorrências, que diz mais sobre o tamanho da população do que sobre o risco de quem mora lá.

Este texto não vai eleger a região mais segura do DF. Vai mostrar como ler o dado que já existe, é público e é atualizado todo mês, para você comparar as regiões que estão na sua lista.

01 A pergunta certa não é "qual região é segura"

Segurança não é uma nota única. Um bairro pode ser tranquilo para andar a pé e péssimo para deixar carro na rua. Outro pode ter pouco furto e concentrar roubo em transporte coletivo, o que só importa se você depende de ônibus.

Por isso a pergunta útil é outra: segura para quê, e para a rotina de quem? Quem vai de carro para a Esplanada e estaciona na rua tem um risco. Quem volta a pé do metrô às 22h tem outro. Os dois moram na mesma quadra.

02 O primeiro erro: comparar número absoluto

No primeiro semestre de 2026, Ceilândia registrou 833 roubos a transeunte e Águas Claras registrou 56. Parece uma diferença de quinze vezes. Só que Ceilândia tem 356.781 moradores projetados para 2026 e Águas Claras tem 131.440. São quase três vezes mais pessoas.

Corrigindo pela população, a distância continua existindo, mas encolhe para pouco mais de cinco vezes. É uma conclusão diferente, e é a que resiste. A conta é simples e você faz em qualquer planilha:

ocorrências ÷ população × 100.000 = taxa por 100 mil habitantes.

Sem essa correção, toda região populosa parece perigosa e toda região pequena parece um paraíso. O Sudoeste registrou 9 roubos a transeunte no semestre, o menor número da nossa lista, mas ele também é a menor RA da lista, com 58.687 moradores.

03 O que os dados de 2026 mostram, região por região

Abaixo, oito regiões administrativas que costumam entrar na lista de quem está chegando. Os dados são da SSP-DF, de janeiro a junho de 2026, e a população é a projeção da Codeplan para 2026. As taxas são cálculo nosso, por 100 mil habitantes, no semestre.

RegiãoPopulação 2026Roubo a transeunte (taxa)Furto em veículo (taxa)
Sudoeste/Octogonal58.68715,342,6
Águas Claras131.44042,668,5
Guará148.81257,845,0
Vicente Pires85.20871,636,4
Taguatinga218.656149,1110,2
Plano Piloto249.229150,5457,0
Samambaia269.606160,641,9
Ceilândia356.781233,549,9

Para referência, o DF inteiro fechou o semestre com taxa de 115,4 em roubo a transeunte e 71,2 em furto em veículo.

Olhe a tabela duas vezes, porque as duas colunas contam histórias diferentes. Ordenada por roubo a transeunte, Samambaia é a segunda pior. Ordenada por furto em veículo, Samambaia é a segunda melhor, abaixo da média do DF. Águas Claras faz o caminho inverso: ótima na primeira coluna, acima da média do DF na segunda.

É isso que significa dizer que não existe nota única. Trocar de região pode reduzir um risco e aumentar outro.

04 O caso do Plano Piloto: seguro para você, arriscado para o seu carro

O dado mais desproporcional do semestre está no Plano Piloto. Foram 1.139 furtos em veículo em seis meses, de um total de 2.330 em todo o Distrito Federal. Ou seja, uma região com 7,6% da população do DF concentrou 48,9% dos casos. A taxa, 457,0 por 100 mil, é 6,4 vezes a média do DF.

E no mesmo período, na mesma região, foram 5 roubos de veículo e 3 roubos em residência. Números baixíssimos.

A diferença entre furto e roubo explica o contraste, e ela é jurídica antes de ser estatística: roubo tem violência ou ameaça, furto não tem. O Plano Piloto é uma região com enorme fluxo diário de gente que trabalha ali e mora em outro lugar, com estacionamento aberto em superfície por toda parte. Isso produz muito furto de acessório e de objeto deixado dentro do carro, sem nenhum confronto.

Na prática, para quem vai morar ali: o risco relevante não é o assalto na porta de casa, é o vidro quebrado no estacionamento da quadra comercial. São problemas com soluções diferentes.

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05 A armadilha do arquivo: o mesmo endereço entrega anos diferentes

Esta parte vale para quem for baixar os dados por conta própria, e ela quase estragou esta apuração.

A SSP-DF publica uma planilha por região administrativa. Os endereços seguem um padrão parecido, com o número da RA na frente. Só que o mesmo padrão de endereço devolve arquivos de anos diferentes conforme a região. Ao baixar a lista inteira de uma vez, a planilha de Taguatinga veio com o ano de 2023 fechado e a de Vicente Pires com 2024 fechado, enquanto as demais vieram com 2026 parcial.

Quem não conferir vai comparar doze meses de 2023 com seis meses de 2026 e concluir que Taguatinga tem quatro vezes mais roubo que o Plano Piloto. O dado correto de Taguatinga no mesmo semestre é 326, não 1.472.

A checagem leva dez segundos: abra a planilha e olhe a linha "COMPARATIVO MENSAL", que traz o ano. Confira também quantos meses têm valor preenchido, porque o mês corrente costuma entrar zerado antes de consolidar.

06 O que o dado não responde

Registro de ocorrência mede o que foi registrado, não o que aconteceu. Furto de baixo valor costuma não virar boletim, e essa subnotificação não é igual em todas as regiões.

Há mais três limites que importam na hora de decidir:

07 Como fazer sua própria comparação

08 Perguntas frequentes

Qual é a região mais segura do DF?

Depende do crime que importa para a sua rotina, e por isso não existe uma resposta única. Na nossa lista, no primeiro semestre de 2026, o Sudoeste/Octogonal teve a menor taxa de roubo a transeunte, 15,3 por 100 mil, e Vicente Pires teve a menor de furto em veículo, 36,4. São regiões diferentes.

Por que o Plano Piloto tem tanto furto em veículo?

Foram 1.139 casos em seis meses, 48,9% do total do DF, numa região com 7,6% da população. A explicação mais direta é o enorme fluxo diário de pessoas que trabalham ali sem morar ali, somado a estacionamento aberto em superfície. No mesmo período foram só 5 roubos de veículo, o que indica furto sem confronto, não assalto.

Onde encontro os dados oficiais por região administrativa?

No site da SSP-DF, na seção de dados por região administrativa, em PDF e planilha. Confira sempre o ano indicado na linha "COMPARATIVO MENSAL" dentro do arquivo, porque endereços parecidos devolvem anos diferentes.

Dá para confiar na taxa por 100 mil habitantes?

Ela é bem melhor que o número absoluto para comparar regiões de tamanhos diferentes, mas continua sendo uma média da região inteira. Ela ordena a sua lista e não substitui a visita ao endereço no horário real.

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